Provérbios

PROVÉRBIO DO VALLE

A Bigorna dura mais que o martelo

Apesar de ser quem recebe a pancada, a bigorna que dura mais. A ação é clara: dura mais quem é mais resistente, e não quem agride.

Não estou querendo dar conselhos às esposas de maridos infiéis, mas vou contar um caso verdadeiro.

O marido ganhava bem, era diretor de uma transnacional, adorava a mulher e os três filhos (uma menina e dois garotos). Todo executivo bem sucedido goza duas férias por ano, até perder o emprego. Aí tem férias mais longas, de um ou dois anos. Mas nosso herói estava empregado e nas duas férias, uma na Europa, e na de uma semana, nos Estados Unidos, levava a família inteira. Só a Disney ele já aguentara três vezes.

Dura mais quem é mais resistente, e não quem agride.

De repente, aconteceram coisas estranhas. Ele mudou o perfume de limão para um mais doce, começou a fazer um gênero garotão nas roupas. Arquivou a calça preta e paletó cinza e não os usava nem para reuniões com executivos paulistas. Passou a andar de ternos largos até na Porta Aérea. É claro que foi a sogra a primeira a desconfiar. A filha (a esposa) só se convenceu quando ele anunciou no jantar, entre uma notícia e outra: “Boas férias, tenho de ir sozinho a Cannes. A empresa quer que eu aproveite para ver a hipótese de um investimento lá e eu não poderia dar assistência a vocês.” A sogra foi insuportável: “Se você quiser, eu vou e cuido das crianças” (seguia-se um sorriso maroto). “Não vou lhe dar esse trabalho”, foi a resposta. A sogra percebeu o símbolo e definitivamente comprometeu-se, porque ninguém acreditaria que ele tivesse essa preocupação.

O dia seguinte foi de choro, raiva e planos. O advogado, prontamente convocado, mostrou que os riscos de um divórcio eram enormes. Se não fossem casados, ela teria mais direitos, mas, pela originalíssima lei brasileira, sendo legalmente casada, ela estava menos protegida. O emprego dele não era estável. A não ser que ele aceitasse uma partilha imediata, filhos (pensão) com ela, etc., e isso era mau, porque a amante era recente, a advogada aconselhava prudência. Valia a pena deixar que o romance se consolidasse.

Em todo caso, para que ele não se acovardasse e voltasse à moleza, foi decidido que, em troca, ela exigiria duas semanas nas Bahamas. Isso serviria para dar o tom, e o nível das exigências futuras. Ele aceitou. No dia do embarque dele, a sogra estava no saguão do aeroporto, no meio de centenas de malas de uma excursão de paraenses do interior, que iam com a Europa de ônibus. De criar em punho, ela beijou, do ponto avançado: “É a secretária.”

Os planos foram traçados nas férias. Desprezo, sem excesso. Alegria, muita alegria. E, sobretudo, vida cara para ela e para os filhos, “O Marquinhos quer passar o fim de semana nos Alpes. Ele merece o prêmio. Tirou 2 em Português. Mês passado – do tédio tirei umas férias – o marido bom caráter não pode negar nada ao filho, quando gasta dinheiro com a amante.

O fim, é fácil concluir. A secretária entrou em desespero, começou a falar mal de “sua mulher gastadeira” e de “seus filhos mal educados”, o romance acabou e a funcionária foi despedida.

Vocês podem fazer duas objeções a esta história. A primeira-a que a esposa foi o martelo e não a bigorna. Respondo: ela foi eficiente, mas não quis dar. Quem disse que não tenha sofrido com as marteladas do marido e da secretária. Existem bigornas enferrujadas, mas continuam sendo bigornas. Não era a situação do chegar à meta, cheirando a uísque, com sono, e dizendo que tinha vindo de uma reunião com o Departamento do Extremo-Oriente, e na realidade, ela sabia que o marido não era o único, que a história era um espírito machista. Eu concordo, mas não era. Sendo que vivem hoje felicíssimos. Aliás, ela ainda está empregada, e já teve de aguentar a Disney mais uma vez.