
⭐ 13/05/1934 | ➕ 09/01/2000
Nascimento: 13/05/1934 – Rio de Janeiro, RJ
Profissões: Professor, Diplomata e Bacharel em Direito
Filiação: Alvaro Dias do Valle e Laura Evangelina Bastos do Valle
A biografia de Alvaro Valle é uma evidência clara de que, sobretudo no Brasil, se pode fazer política com seriedade, ideias, lucidez e dignidade. Durante os 65 anos de sua vida, a presença de Alvaro Valle foi uma referência de nacionalidade, patrimônio, honra e dedicação à causa educacional.
Seu desaparecimento em 09 de janeiro de 2000 interrompeu mais que uma brilhante carreira da vida pública brasileira. O falecimento de Alvaro Valle abriu uma lacuna que combatia, irremediavelmente, as barricadas da chamada reserva moral da política brasileira.
A cada manifestação, gesto, projeto de lei ou pronunciamento de Alvaro Valle, era evidente a experiência e o conhecimento do homem que soube compreender, com sabedoria, o cotidiano dos mais humildes. Por onde passou, Valle deixou legiões de admiradores.
Diplomata de brilhante carreira, o Deputado Alvaro Valle era um desses raros professores que parecia inspirado pelo magistério a todo tempo e lugar.
Disposto a levar para todas as partes seus ideais de liberdade, o político Alvaro Valle entendia que tinha de renunciar à tranquilidade da condição de ser o mais prestigiado político fluminense de uma legenda ideologicamente genérica. Seu projeto era mais objetivo.
Dessa renúncia, nasceu o nosso Partido Liberal (PL Republicano). Para ele, o partido nasceu para ser um celeiro de ideias, uma escola primordial da cidadania e correia de transmissão para o progresso.
Alvaro Valle cultivou a criação do Partido Liberal (PL Republicano) e a indispensável riqueza moral e política para orientação das futuras gerações de nosso país.
Nos últimos anos de sua vida, Alvaro Valle lutou com valentia contra o câncer que lhe roubava a saúde, sem que jamais fosse abalada sua fé no Brasil. Sem que a lucidez o abandonasse, Valle orientou as posições políticas de seus companheiros até os seus últimos momentos.
Esses anos de sofrimento contínuo não abalaram a tenacidade de Valle na front político, ainda que perdesse batalhas diárias contra os males do câncer.
Combativo e presente no Congresso Nacional até o fim, ele foi o político que não se conformou com os rumos que o Brasil tomou. No seu último ciclo de vida, mesmo submetido a intenso tratamento, Alvaro Valle dedicou suas últimas forças à missão de denunciar a dilapidação do patrimônio nacional com as chamadas privatizações dos períodos em que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso ocupou o cargo de Presidente da República.
Por ocasião do falecimento de Alvaro Valle foram registradas manifestações de saudade por cartas, telegramas e e-mails enviados de mais de 10 países. E isto sem falar da correspondência de todos os pontos do Brasil.
Entretanto o que mais chamou a atenção de todos foi a devoção com que seus amigos, estrangeiros e brasileiros que vivem no exterior, patrocinaram celebrações religiosas pelas cidades por onde Valle serviu.
Foram Missas para um brasileiro com o prestígio de um nativo célebre, como se pôde verificar nas Missas de 7º dia e de 30º dia – celebradas respectivamente nos dias 15 de janeiro e 10 de fevereiro, na Igreja de Saint Patrick, em South Miami Beach; Missas de 7º dia e de 30º dia celebradas na Catedral de Saint Patrick, em Manhattan; Missas de 7º dia e 30º dia, no dia 15 de janeiro, 17:00, na Igreja do Bom Pastor (GoodSheperd Church), Rochester, Nova Jersey, ambas nos Estados Unidos. Na Alemanha a missa foi em Colônia, dia 21 de janeiro, 18:00h, na Catedral de Colônia (Köln Dom), à Rua Domkloster 3 e em Düsseldorf, Missa no dia 27 de janeiro, às 18:00h na Igreja St. Albertus Magnus Golsheim, à Rua Kaiserwerther Strasse 211.
Mais segundo informações de quem lá esteve, não houve celebrações mais emocionadas que as realizadas em Paris: Igreja da Medalha Milagrosa – dia 15 de janeiro, 18 horas (hora local) à Rua du Bac no Troc, e no dia 12 de fevereiro, às 18:30 horas, na Igreja de La Madeleine.
Aliás, para quem conhecia a admiração de Valle pela cultura parisiense, não era mesmo de se estranhar que acontecesse em Paris as celebrações póstumas de maior repercussão no exterior.
Homem de inabalável inteligência e extraordinária cultura, Alvaro Valle sempre dedicou o melhor de suas inúmeras qualidades ao ofício de servir ao Brasil com o mais elevado espírito público.
Às dependências da ONU, da OEA, da OIT, do escritório do Brasil em Nova Iorque, além dos consulados do Brasil na Argentina, Suécia, e Embaixadas do Brasil nos Estados Unidos e França, constam como alguns dos endereços por onde as qualidades de Alvaro Valle foram reconhecidas em sua agenda diplomática.
A inquieta vocação para o cumprimento do dever cívico, no entanto, interrompeu a carreira diplomática de Valle que, a esta altura dos anos 70, não se conformava com as notícias sobre a queda do nível do ensino brasileiro.
Muito antes de virar moda falar fácil no discurso de políticos, a Educação para Alvaro Valle era o passaporte do Brasil para o futuro. “Sem uma Educação libertadora, o cidadão não será capaz de uma análise crítica do mundo em que vive”, costumava repetir.
Ícone de causa educacional, Alvaro Valle retomou sua trajetória política iniciada pelo mandato de Deputado Estadual, 1962-1964, GB, UDN; para uma expressão política de forte presença no parlamento brasileiro (Deputado Estadual, 1971-1975, GB, ARENA; Deputado Federal, 1975-1979, RJ, ARENA; Deputado Federal, 1979-1983, RJ, ARENA; Deputado Federal (Constituinte), 1983-1987, RJ, PDS; Deputado Federal, 1987-1991, RJ, PL; Deputado Federal, 1991-1995, RJ, PL; Deputado Federal, 1995-1999, RJ, PL).
Desde o retorno às atividades políticas – ou ao chamado “bom combate”, como gostava de dizer – Alvaro Valle era a voz que não se calava para os atentados cometidos contra a educação brasileira. Foi assim quando presidiu a Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Foi assim a cada ação, palavra, voto ou pronunciamento.
O Brasil dos sonhos de Alvaro Valle teria de ser construído pela via da Educação. E esta edificação, para ele, estava condicionada à efetiva valorização do magistério e ao apoio integral às atividades do professor.
Durante a legislatura 1975-1979 Alvaro Valle surpreendeu mais uma vez encontrando o meio de trazer para o parlamento a profundidade de sua cultura erudita. Entre as inúmeras iniciativas do parlamentar que homenageava a literatura, as artes e aos artistas, pelo menos uma delas mudou a anatomia artística brasileira. Este foi o caso da lei, relatada por Valle, que regulamentou a atividade do artista no Brasil. Isto quer dizer que a vida artística profissional brasileira tem sua história dividida em dois tempos: Um tempo antes e outro depois da regulamentação que garantiu, além de carteira assinada, a existência da organização formal e sindical da categoria artística.
Regulamentar a atividade artística brasileira, entretanto, não foi o único momento em que Alvaro Valle foi protagonista no mundo das artes. Escritor de farta obra, Valle foi o dramaturgo que escreveu peças de teatro com reconhecido sucesso do crítica e público. “A Bomba da Elizabeth”, dirigida por Adolfo Júnior e produzida por Jorge Ayen, fez sucesso de casa cheia o ano inteiro de 1981, no Teatro Médici, no Rio de Janeiro, tendo saído de cartaz no ano seguinte. Para a peça de Jean Giraudoux, “La Folie de Chaillot” Valle fez a tradução e adaptação que, com bom humor e sarcasmo, emplacou mais um grande sucesso do teatro francês. Ainda em matéria de textos para teatro Valle nos deixou o texto “A Louca de Copacabana”, que traz um tema muito atual para as grandes cidades, porque conta a história de uma senhora que luta contra os grandes interesses de construtores e de exploradores de petróleo nos subúrbios de Paris, transportada para o cotidiano do Rio de Janeiro.
O deputado Alvaro Valle também publicou inúmeras obras literárias incluindo ficção, sociologia e peças para teatro. Entre muitas de suas obras publicadas destacam-se: Suécia e Outros Assuntos (Laudes, 1968); Estruturas Políticas Brasileiras (Laudes, 1968); Os Contemporâneos (Laudes, 1969); As Novas Estruturas Políticas Brasileiras (Ática, 1977); Carta Para Um Jovem Cristão (Nórdica, 1978); O Parlamento – um estudo comparativo dos regimentos internos das Câmaras dos Deputados brasileira, francesa, americana, inglesa, portuguesa e espanhola (Universidade Gama Filho, 1984); As Eleições de 1982 e o Voto Distrital (Boitempo, 1984) – um estudo em que faz a projeção dos votos de 1982, para a hipótese de implantação do sistema de eleição distrital no Brasil; O Bom Combate (Nórdica, 1985) – que resume sua atuação política desde o início de sua carreira; O Liberalismo Social (Nórdica, 1982) – em que lançou o manifesto e a condensação da doutrina do Partido Liberal; A Noite Todos Os Gatos São Pardos – Antologia de Provérbios (Júlio Christiane, 1996); A Arrogância no Poder (Júlio Christiane, 1998) – livro de profunda crítica ao governo Fernando Henrique Cardoso; e Vento Sul (Júlio Christiane, 1999) – que traz um resumo de sua atuação política, desde a publicação de O Bom Combate.