PROVÉRBIO DO VALLE
Os soldados em batalha, reclamando dos estrategistas, costumam dizer que “quem está na trincheira é que sabe de onde vem o tiro”. Tomou-se um provérbio inglês. Os soldados não têm razão, sobretudo agora nas guerras de mísseis. Também acho que não são iguais os dois provérbios, como alguns livros sugerem. Por isso, não incluí aqui o provérbio inglês. A frase diz que quem está em contato com a situação, é que a conhece. Sobretudo, é quem sabe os seus riscos (a quentura).
Poucas coisas são tão irritantes quanto ter de ouvir palpiteiros que gostam de correr o risco da força com o pescoço alheio. “Se fosse eu, ahn…”, é a frase preferida. E sugerem gestos heroicos de quem quer distrair-se com o incômodo do circo.
Ouvi pela primeira vez este provérbio em um contexto altamente expressivo, e é a cena me serviu de lição para o resto da vida. Transmito aqui essa aula de sabedoria que tive de um mendigo, há vários anos atrás.
Quase todos os dias, ao chegar à minha casa, via sentado na calçada, próximo ao edifício, um mendigo, esperando suas esmolas. Várias vezes, cumprimentávamo-nos, quando eu passava ele carro.
Um dia, percebi que tinha esquecido as chaves de casa. Telefonei para um irmão que tinha cópias, e pedi-lhe que as enviasse para socorrer-me. Como a espera seria de pouco tempo, resolvi puxar conversa com o mendigo cumprimentador. Era um deficiente físico, que vivia em um país que não dá aos deficientes muitas oportunidades de trabalho.
Com ar meio de filósofo, mas sem fazer de sua vida um drama, ele contava com crua serenidade as suas dificuldades. Não as repito aqui, para não irritar ainda mais o leitor contra o autor deste livro, pelo que contarei adiante.
Penalizado, confessei ao mendigo que nunca lhe havia dado qualquer auxílio, porque imaginava que, bem localizado, já estava recebendo auxílio da vizinhança.
“Esse é o meu problema. Todo mundo acha que não precisa fazer nada, porque os outros estão fazendo. Como não sentem a quentura da panela, não estão sofrendo.”
Percebi que, realmente, muitas vezes deixamos de cumprir o nosso dever, confortando a consciência com a ideia de que outras pessoas estarão cumprindo o seu.
Durante um ano, ao chegar à casa, procurava, todos os dias, o mendigo, com a sensação de que não lhe estava dando esmola, mas pagando, em suavíssimas prestações, uma excelente aula que havia recebido. A última vez que o vi, disse-me ele que ia voltar para a sua terra, em Minas, na fronteira com o Espírito Santo. Nunca mais mandou notícias.